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Reflexão sobre a Campanha da Fraternidade 2015

Introdução

O Dr. J.J. Camargo (2013), conta no seu livro A Tristeza Pode Esperar, que “Leo Buscaglia serviu de jurado num concurso de histórias infantis e se encantou com o relato de um garoto de quatro anos que tinha um vizinho idoso cuja esposa havia falecido recentemente. Ao vê-lo chorar encolhido no quintal, o menino pulou o muro e simplesmente se sentou ao lado dele. No dia seguinte a família recebeu um buquê de flores com o agradecimento comovido do vizinho. Quando a mãe perguntou ao menino o que havia dito ao velhinho, ele respondeu: “Nada. Só ajudei a chorar”” (Camargo, 2013, p.19 e 20).[/norebro_text]

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Reflexão: Urgência do Servir

A Campanha da Fraternidade de 2015 tem um tema muito interessante: Fraternidade – Igreja e Sociedade, cujo lema é “Eu Vim para Servir” (cf. Mc 10,45). O motivo deste tema é a comemoração do jubileu de encerramento do Concílio Vaticano II, ou seja, é um momento muito especial em que a Igreja Católica se abre para o diálogo mais amplo com o mundo hoje. O lema nos remete ao aprofundamento sobre as transformações que a vida contemporânea tem nos colocado diante das relações que mantemos com o mundo, com os outros e conosco.

Um dos principais objetivos do Concílio Vaticano II foi preparar a Igreja para as referências do anúncio do evangelho para colocar a serviço de todos – o Reino de Deus. Numa perspectiva eclesial em que se envolve uma visão da comunhão na ação evangelizadora, temos que sair em busca das pessoas, das
famílias e das comunidades como forma de fazer conhecer a mensagem de Jesus Cristo.

Portanto, o Concílio Vaticano II pode ser interpretado como uma refundação da Igreja diante dos desafios dos novos tempos. As transformações que o mundo passa são irreversíveis. São rápidas, dinâmicas e velozes como nunca tivemos na história da humanidade. As alterações na vida humana provocadas pela aplicação da técnica e das novas tecnologias, gerou o que
passamos a denominar “era do conhecimento e da informação”. Neste sentido, é preciso fazer correções de rumos. A Igreja tem que conservar a sua essência, mas é preciso atualizar-se. Daí se abre para reconciliar como tentativa de renovação das suas estruturas, na sua missão e no seu caminho.

Enfrentamos nos dias atuais graves problemas que nos são colocados: a sociedade brasileira tornou-se nos últimos 15 anos uma sociedade de consumo. Alguns milhões de brasileiros sairão da linha da pobreza e por meio de um programa social de amplo lastro de seguridade fez inserir no mercado uma massa de consumidores. As políticas sociais têm afirmado que foram incluídas na vida social uma massa de indigentes, miseráveis e pobres, mas pesquisas sobre a produção da pobreza no Brasil têm revelado os limites destes programas que por vezes se restringiram a condição de assistência social. Esse modelo caracterizado pelo assistencialismo tem sido usado como forma de práticas manipuladoras e associada a um ativismo alienante. Isso tem provocado denúncias e vinculadas à corrupção que estamos assistindo surge um momento de descrença nas instituições da sociedade brasileira.

Frente às injustiças, a Igreja não pode calar. Assim, constata-se que a relação igreja e sociedade é insuperável. A crise que se abate na sociedade tem respingado na Igreja. A situação da vida humana é complexa e os cristãos não podem desanimar diante das situações que abatem a todos e tocam a vida espiritual. Mas não podemos contentar a nossa análise pontuando que as causas da crise na Igreja e no Brasil, que são simples consequências do capitalismo contemporâneo e da globalização neoliberal. O choque que tomamos é parte das convulsões que estamos inseridos na realidade social. Porém, a crise que atinge a Igreja é grave: parece que a fé está em declínio. Lembro que a Igreja fez a opção preferencial pelos pobres. Essa visão eclesial está alicerçada na Doutrina Social da Igreja. A Igreja apresenta a sua compreensão sobre o ser humano, a pessoa, a família e a sociedade. Mas além das situações internas da própria Igreja, há processos sociais que negam a evangelização, a construção da paz, do bem comum e da democracia. Esses graves problemas tem o seu sintoma no aumento da violência e nos índices de criminalidade, porém, não podemos deixar de destacar que a marca da catástrofe social que estamos enfrentando tem a sua face no individualismo, no materialismo, no egoísmo que nos domina e nos apreende por meio do secularismo, do relativismo e do consumismo. A Igreja como instituição é desafio frente às situações em que se colocam a inversão e a desvalorização da vida humana.

Mas lembro de que a Igreja é um corpo. É o corpo místico de Jesus Cristo. A cabeça desse corpo é Jesus Cristo. O Papa Pio XII afirmou na Encíclica Mystici Corporis: que a Igreja é um corpo único, indiviso, inquebrantável e visível. Logo, isso significa afirmar que a unidade da Igreja é fundamental, mas há que ter respeito pela sua pluralidade. Ou melhor, em sua etimologia o termo “católico” significa universal. A Igreja na sua universalidade preserva a unidade vivida pela transcendência, na sua dimensão celestial e mística. Dito de outro modo, a diversidade se harmoniza na unidade. É um corpo que possui muitos membros, que mantêm relacionamentos diversos com a sociedade. Na Igreja há, também, governança. Nela há hierarquia, há vida contemplativa, carismas e sacramentos que fazem a mística simbólica da fé. É pelo batismo que nos tornamos povo de Deus. A Igreja como Povo de Deus tem na sua missão transformar as relações sociais injustas para nos aproximar do Reino de Deus e pela comunhão como nos ensina o Papa Francisco, “Deus não pertence propriamente a algum povo; porque Ele nos chama, convoca-nos, convida-nos a fazer parte do seu povo, e este convite é dirigido a todos sem distinção, porque a misericórdia de Deus, quer a salvação para todos” (1 Tm 2,4) (Papa Francisco em seu discurso na audiência geral na Praça de São Pedro no dia 12.06.2013).

O Servir

Sob inspiração evangélica o Catecismo da Igreja Católica define sociedade como, “um conjunto de pessoas ligadas de modo orgânico por um princípio de unidade que ultrapassa cada uma delas. Assembleia ao mesmo tempo visível e espiritual, uma sociedade perdura no tempo: assume o passado e prepara o futuro. Através dela, cada homem, é constituído “herdeiro”, recebe “talentos” que enriquecem a sua identidade e cujos frutos deve desenvolver. Com toda razão, cada um é devedor de dedicação às comunidades de que faz parte e de respeito às autoridades encarregadas do bem comum” (Catecismo da Igreja Católica, 1993, p.1880).

Nesse conceito podemos identificar a dimensão sociológica, teológica e espiritual. Mas a sociedade é uma organização humana em que predominam relações sociais que são recortadas por relações de classes que disputam a hegemonia e o poder, a direção política e cultural da sociedade. Essas disputas são representadas pelas instituições sociais, que simbolizam interesses econômicos e ideológicos. No entanto, cada pessoa age com um ator social, como sujeito histórico inserido na sua realidade. Mas a pessoa humana transcende a sociedade e a história. Isso implica dizer que o ser humano não deve se limitar à realidade concreta, mas que há outras possibilidades de afirmação da sua humanidade. Aqui a exigência em que se coloca o servir pede que estejamos abertos à doação ao outro, ao diferente de mim, e a Deus. Para o entendimento da Igreja, alienada é a sociedade em que os homens são levados ou deixam-se levar pelas estruturas sociais que negam o ser humano
na sua identidade e Deus. Porém, Deus está presente na história. A força do evangelho move o humano diante das circunstâncias injustas da vida social. As palavras de Cristo são fermento para que possamos analisar a nossa presença
no mundo junto aos outros. Neste sentido, o fim do humano é o encontro com Deus. Mas não podemos aguardar de braços cruzados a vida eterna. É fundamental a nossa ação de denúncia, contra o mal que destrói a nossa humanidade ou põe em risco a dignidade de cada ser humano, mas que a sua superação por ter início aqui entre nós, posto que são relações criadas pelos homens e não por Deus.

Pensando sobre a relação Igreja e sociedade, temos refletido sobre o sentido de ser comunidade. A comunidade tem uma identidade original que a marca e a diferencia. A nossa paróquia pode ser comunidade de comunidades, desde que seja uma comunidade de fé, enquanto comunidade eclesial. Aqui está pressuposto o engajamento dos leigos, o envolvimento das famílias e a nossa abertura para uma experiência eclesial em comunidade. Perguntas podem ser colocadas para nos ajudar a compreender o que ser comunidade: Como tornar a nossa comunidade mais viva, mais comunidade de comunidades? Como podemos melhor servir a nossa comunidade? Como podemos colocar os nossos talentos, o nosso tempo, a nossa energia, a nossa inteligência à disposição da nossa comunidade? Na comunidade está vivo o princípio do servir e o servir está na fraternidade.

O servir se faz pelo cuidado. O cuidado com a existência, com o corpo, com a vida intelectual e espiritual. O cuidado com o planeta, a terra, a vida do Planeta Terra. O cuidado designa a necessidade de atenção ao outro, a preocupação com a outra pessoa. O cuidar denota a necessidade de cuidar e ser cuidado. Finalmente, o cuidado é precaução e prevenção. É preciso que possamos nos antecipar as situações, e não nos deixar levar somente pelas consequências das coisas, principalmente, se estas forem negativas. Portanto, o servir nos exige o cuidado e o cuidar requer o que o Prof. Leonardo Boff (2013), nos coloca:

  • Uma relação amorosa, amiga, protetora.
  • Uma atitude de preocupação com o outro;
  • Uma ação de amor próprio: cuidar, pede ser cuidado.
  • Um comportamento de precaução e prevenção.

O servir está na essência do ser humano. A vida somente tem sentido se soubermos vivê-la, e isto pede estarmos a serviço das pessoas. Para vivermos  a autenticidade da vida é necessário que estejamos a serviço: ajudar, auxiliar, estar à disposição, porque não dizer, agradar, satisfazer o outro. Pôr em ação e viver o servir, é um desafio num mundo cada vez mais fechado, em que as pessoas ficam abafadas, com a pressa, a correria do dia a dia. Às vezes no cansaço da rotina nos esquecemos de nós mesmos, dos outros e de Deus.

Servir pode ser resumido no pensamento de Cristo que nos ensinou: “Ama o próximo como a ti mesmo”. Cada pessoa tem um valor, que não encerra nela mesma, mas tem o seu fim em Deus. Servir é acolher. É receber em comunhão, posto que o sacramento do batismo nos coloca em igualdade e fraternidade. O jeito de ser cristão nos impõe a responsabilidade de servir a Deus e aos irmãos.

A Campanha da Fraternidade 2015 é um instrumento com o qual possamos durante a quaresma nos debruçar sobre o mistério pascal como fonte de iluminação para a transformação da nossa realidade. Portanto, é indispensável o nosso compromisso, empenho e mobilização comunitária para que por meio das nossas pastorais possamos nos engajar promovendo o nosso aprofundamento espiritual, fortalecendo a nossa fé e construindo uma atitude de servir verdadeiramente ao outro vivendo a esperança de um mundo melhor. Eis a nossa missão: servir.

BOFF, L. O cuidado necessário. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
CAMARGO, J.J. A tristeza pode esperar, uma jornada de afeto, perda e superação entre o médico e seus pacientes. 3ª ed. Porto Alegre: L&PM: 2013.
Campanha da Fraternidade 2015 – documento base., Brasília: Edições CNBB, 2014.
Catecismo da Igreja Católica. Petrópolis: Vozes, 1993.
MIRANDA, E. E. de. Eu vim para servir – comunidade, igreja e sociedade., São Paulo: Edições Loyola, 2014.

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